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Com que Voz

A procura de uma síntese 

O primeiro disco de Amália foi editado no Brasil em 1945, contando com dois temas: "Perseguição" e "As Penas". A fase a que chamamos «continental» prolongou-se até 1950, e os discos continham sobretudo fados clássicos, castiços. Talvez por isso, e também devido ao seu amor pela língua e pela cultura espanhola, terá encetado um caminho pela música daí oriunda. Amália gravou, pela editora Continental, títulos como os que mencionámos, além de "Tendinha", "Sei Finalmente", "Fado do Ciúme", "Mouraria", "Passei Por Você", "Duas Luzes", "Troca de Olhares", "Sardinheiras". Amália, todavia, também interpretou "Ojos Verdes", "Carmencita", "Los Piconeros". Desde cedo, Amália revelou esta paixão fervorosa pela cultura, pela língua, e pelas canções espanholas.

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Em 1951, Amália começou então a gravar com a editora Melodia, tendo passado a editar os seus discos em Portugal. Continuou a sua digressão pelos fados mais clássicos, gravando títulos como "Fado Malhoa", "Fado do Ciúme" ou até "Não Sei Porque Te Foste Embora". Nesta fase que durou até 1953, Amália começou subtilmente o seu itinerário pela poesia portuguesa, interpretando pela primeira vez um poema de Pedro Homem de Mello, que se intitulava "Fria Claridade".



Em 1952 Amália desloca-se a Londres, ao estúdio Abbey Road, para gravar temas como "La Salvaora", "Noite de Santo António", "Malmequer Pequenino", "Grão de Arroz", "Lereré", "Não Digas Mal Dele", "Zarzamora", "Uma Casa Portuguesa", "Tudo Isto É Fado", "Fado Hilário", "El Negro Zumbón", entre outros. É também nesta fase que Amália grava "Foi Deus" de Alberto Janes. Também por esta altura sairia um fado com versos de David Mourão Ferreira, o qual se havia de tornar um dos poetas maiores na carreira de Amália. Estava assim editado o fado "Primavera" com composição de Pedro Rodrigues.

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 A estes primeiros temas, gravados em discos sucessivos de 78 rotações, viriam a seguir-se títulos como "Barco Negro", "Fallaste Corázon", "Trepa No Coqueiro", "Solidão", "Antigamente", "Por Un Amor". O primeiro disco desta série propõe-se a ser uma pequena coleção daquilo que Amália cantava em português e em espanhol. Este disco com o título em inglês (Amália Sings Fado From Portugal and Flamenco From Spain) surge como exemplo perfeito da Amália-intérprete de fado e de flamenco. 

Estes discos em Long Play saem em França, EUA, Inglaterra, África do Sul. Aquele que parece ter tido mais sucesso, desta série, foi o disco Amália à L'Olympia, resultado do concerto ao vivo que Amália ofereceu nesta sala de espectáculos no ano de 1956. Este disco saiu em França, no Japão, na Holanda, na Itália, em África do Sul e, também, em Portugal.

Em relação à Barclays, sabemos que terá saído um disco de Amália nesta editora em 1956, editado em França, com o título Les Meilleurs Fados Portugais. A editora Festival também editou um disco com o título Fados, e a Duceretet Thomson assumiu a edição de mais uma coletânea de fados, à semelhança do que acontecia com as outras editoras mencionadas.

Capa de Disco

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Seguiram-se os discos de 45 rotações, editados pela Columbia. Os títulos Amália The Beautiful, Les Amants du Tage, Amália Sings, Fado dos Fados saíam para o mercado assim como outros discos sem título, apenas com o nome de Amália e a sua imagem. Só isto bastaria para que vendessem, não seria necessário adicionar um título aos discos propriamente. Em 1958 saiu um disco de Amália a cantar apenas em francês, com o título Chante En Français. De igual modo, seguiu-se um disco gravado apenas com os temas do filme Sangue Toureiro (Les Airs du Film Sangue Toureiro), e um disco com uma coletânea de temas espanhóis (Chante En Espagnol).

Seguiu-se a editora Alvorada, neste registo, com mais alguns discos editados em Portugal, e alguns deles também em Moçambique. Estes discos constituíram uma óptima porta de entrada para a década de 60. No final da década de 50 e inícios da década de 60, Amália viria a editar mais temas de Alberto Janes, como "Rosas do Meu Caminho", "Fadista Louco", e mais títulos de Pedro Homem de Mello, como "Quando os Outros Te Batem Beijo-te Eu", além de temas mais populares como "Bailaricos" e "O Namorico da Rita". Acompanham estes temas títulos como "Conta Errada", "Campinos do Ribatejo", "Eu disse adeus à Casinha".

Em relação ao formato Long Play, Amália edita pela Duceretet Thomson Au Pays du Fado, que sai em França em 1966, tratando-se de um disco gravado ao vivo no Bobino em 1960. Este disco acaba por sair também em Portugal e nos Países Baixos. A Alvorada, em Portugal, também nos oferece alguns discos de Amália, o primeiro deles sem título e sem data especificada, e um outro lançado em 1962 com o título Fado e Touros. Destes dois discos destaca-se a edição do fado "Cansaço" com versos de Luís de Macedo. De novo em França, pela Festival, sai um disco audaz para a época em 1962, disco esse intitulado de Fado e Guitarradas Au Portugal.

Em 1962 haveria de sair um disco verdadeiramente inovador, e que mudaria para sempre a História do Fado. No álbum Busto, Amália interpretava títulos como "Estranha Forma de Vida", poema da própria Amália, "Abandono" de David Mourão-Ferreira, "Povo Que Lavas no Rio" de Pedro Homem de Mello. A primeira edição deste disco sai no Reino Unido, e haveria também de sair em França, África do Sul, Japão. Seguiram-se discos importantes como Amália For Your Delight, Fado Português, Chante Le Portugal, Vou Dar de Beber à Dor que é inclusive o disco mais vendido em Portugal.

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Em 1965 tinha já saído um disco que haveria de fazer eriçar os cabelos a alguns académicos do país. Estamos a referir-nos ao disco Amália Canta Luís de Camões de 45 rotações, no qual gravou "Lianor", "Dura Memória" e "Erros Meus". Todos com composição de Alain Oulman.

As marchas de Lisboa também têm lugar nesta discografia de Amália, e têm direito a estarem reunidas num único disco. Em 1968 é editado pela Columbia (Valentim de Carvalho) o disco Marchas Populares, as quais eram cantadas com orquestra dirigida por Ferrer Trindade, Jorge Costa Pinto e Joaquim Luís Gomes.

Nos Estados Unidos saiu um disco com um título que confirmava a ideia já vigente Amália The Soul Of Portugal. No final da década de 60, fazemos ainda menção a temas como "Fandangueiro", "Fado do Ciúme", "Le Premier Jour Du Monde”, “Inch´Allah”, “Júlia Florista”, “La Maison Sur Le Port”, “Ai Chico, Chico”.

Em 1968 saiu o disco Amália Canta Poesia Portuguesa Medieval.

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É no início da década de 70 que sai a melhor compilação de poesia portuguesa interpretada pela voz de Amália, em termos de variedade de autores, o disco Com que Voz. Neste sentido, Amália edita títulos como "Trova do Ventos que Passa" de Manuel Alegre, "As Mãos Que Trago" de Cecília Meireles, "Gaivota" de Alexandre O´Neill, "Com Que Voz" de Luís de Camões, entre outros.

Adicionalmente, foi editado o concerto que Amália tinha dado no Japão no Shakein Hall e em Itália, saindo também dois importantes testemunhos das tertúlias passadas em Casa de Amália.

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O primeiro disco saiu em 1970 e intitulava-se Amália/Vinicius, pela editora Decca. Este disco foi gravado em Casa de Amália a 19 de Dezembro de 1968 e contou com a presença de Vinicius de Moraes, Natália Correia, Ary dos Santos, David Mourão Ferreira, com o guitarrista Fontes Rocha e o violista Pedro Leal. Nesta sequência, em 1971, saiu também o disco Cantigas de Amigos, de novo com a presença de Ary dos Santos e Natália Correia. Este disco representa uma pequenina amostra deste género galaico português através de adaptações de Natália Correia.

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São lançados mais discos de espectáculos ao vivo, entre estes Em Paris, No Canecão (Brasil), No Café Luso (gravado em 1955), Amália in Teatro (Concerto em Itália), Em Joanesburgo. Sobre Itália, Amália editaria um disco inesquecível A Una Terra Che Amo. Neste disco, podem ouvir-se interpretações de "Ciuri Ciuri", "Sora Menina", "La Tarantella", "Vitti na Crozza", entre outros.

Ainda, o disco Fandangueiro representaria uma importante referência ao património da música popular portuguesa, além do disco Amália Canta Portugal que constitui um memorial, ao longo de 3 discos, do folclore português. O primeiro destes, recordemos, é gravado em 1966, com a Orquestra Filarmónica de Los Angeles, ano, precisamente, em que Amália pisa o palco do Lincoln Center e do Hollywood Bowl para dar voz a este património também imaterial que está enraizado na cultura portuguesa.


Um disco inovador, decerto, para o fado, é Amália & Don Byas, com data de edição a 1973, pela editora Columbia. Neste documento sonoro, Amália é acompanhada pelo saxofone tenor de Don Byas sustentando também o acompanhamento à voz sublime da rainha do fado com um contra canto improvisado. Neste disco são editados alguns dos grandes sucessos da carreira de Amália até então, como fado "Coimbra", "Libertação", "Estranha Forma de Vida", entre outros.

Ainda na década de 70 são lançadas coletâneas com os melhores temas de Amália. Em Espanha, Amália sai na colecção Así Canta, sendo o nº97 e é editado o disco Amália pela editora Ódeon. Em Itália, Amália é incluída na série I Maestri; na Holanda sai um disco com o título Les Plus Grands Succès; no Japão é editado um disco intitulado Barco Negro – Amália Rodrigues Best 20.

Capa de Disco 2019

Na década de 80, Amália grava com os seus próprios poemas dois discos: Gostava de Ser Quem Era e Lágrima. Com composições de Fontes Rocha e Carlos Gonçalves, Amália edita "Lavava no Rio Lavava", "Morrinha", "O Fado Chora-se Bem", "Grito", "Os Teus Olhos São Duas Fontes", "Gostava de Ser Quem Era", entre outros.

Também na década de 80, Amália grava dois temas de Carlos Paião, muito alegres: "O Senhor Extraterrestre" e "Amigo Brasileiro". Ambos saem num disco de 1982 intitulado O Senhor Extraterrestre. Posteriormente, saem ainda temas em inglês que Amália gravou num disco que se dá pelo nome de Amália na Broadway onde Amália interpreta sucessos como "Who Will Buy", "Summertime", "The Nearness of You", entre outros. Este disco sai em Portugal e é editado também em França e no Japão.

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Em 1990 é editado o álbum Obsessão, último gravado em vida, seguindo-se, depois, as colecções de The Best Of Amália que procuram reunir o que melhor Amália cantou, numa tarefa quase impossível de, entre um imenso reportório, escolher quais os melhores temas que a rainha do fado gravou.


INFORMAÇÕES RETIRADAS DA OBRA AMÁLIA, UMA BIOGRAFIA DE VÍTOR PAVÃO DOS SANTOS E DO CATÁLOGO AMÁLIA: CORAÇÃO INDEPENDENTE, 2009.